Quando sentir vira um problema: medicalização e produtividade
- João André Rodrigues

- 11 de ago.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Medicalização, produtividade e uma sociedade que prefere silenciar o sofrimento a escutar o que ele revela.
Talvez o problema não seja que você esteja sentindo demais. Talvez seja que vivemos em um mundo que precisa que você sinta menos para continuar produzindo.
Uma máquina não pergunta por que uma peça quebrou. Ela identifica a falha, interrompe o mínimo possível, substitui o componente e volta a funcionar.
Às vezes, parece que começamos a olhar para seres humanos da mesma maneira.
Você está cansado demais. Ansioso demais. Triste demais. Não consegue se concentrar. Já não dorme bem. O corpo começa a falhar justamente quando ainda existe uma agenda inteira esperando que você continue.
E então surge a pergunta:
O que há de errado com você?
Talvez essa seja uma das perguntas mais violentas do nosso tempo.
Porque há algo estranho em uma sociedade que produz exaustão em escala industrial e depois trata cada pessoa exausta como um caso individual.
O trabalho invade o descanso.A precariedade mantém o corpo em alerta.A solidão cresce.O futuro se torna instável.O desempenho nunca parece suficiente. Mas quando alguém já não consegue acompanhar o ritmo, raramente perguntamos primeiro o que aconteceu com o mundo ao redor dessa pessoa.
Perguntamos o que aconteceu com ela.
Enquanto você sofre e continua entregando, comparecendo, respondendo mensagens, pagando contas e cumprindo prazos, talvez ninguém perceba. O sofrimento se torna realmente inconveniente quando começa a comprometer sua capacidade de funcionar. E aqui aparece uma questão desconfortável:
Estamos preocupados com o sofrimento das pessoas — ou com o fato de elas terem deixado de produzir como esperávamos?
É nesse ponto que a medicalização da vida merece uma reflexão mais cuidadosa. Não porque medicamentos sejam, em si, o problema. Em muitos momentos, eles são recursos fundamentais de cuidado, proteção e sustentação. A questão é outra.
O que acontece quando nossa principal resposta ao sofrimento é torná-lo silencioso o suficiente para que a pessoa consiga voltar ao mesmo lugar, ao mesmo ritmo e às mesmas condições que talvez tenham participado de seu adoecimento?
Talvez exista uma diferença importante entre aliviar uma dor para que alguém possa novamente entrar em contato com a própria vida e anestesiar essa dor apenas o suficiente para que tudo continue exatamente como estava.
Porque o sintoma incomoda.
Ele interrompe.
Ele atrasa.
Ele derruba produtividade.
E, às vezes, aquilo que chamamos rapidamente de “problema” pode estar dizendo algo bastante lúcido:
“Assim, eu não consigo mais.”


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