Ansiedade e necessidade de controle:
- João André Rodrigues

- 12 de ago.
- 4 min de leitura
Você confere a agenda mais uma vez. Repensa uma conversa que ainda nem aconteceu. Imagina o que poderá dar errado e tenta preparar uma resposta para cada possibilidade.
E, em alguma medida, é.
Planejar, antecipar e organizar fazem parte da nossa capacidade de agir no mundo. O problema começa quando o planejamento deixa de nos servir e passamos nós a servir à necessidade de manter tudo sob controle.
Há uma diferença importante entre preparar-se para o que pode acontecer e precisar garantir que nada saia do previsto.
Essa diferença nem sempre é fácil de perceber.
Controlar também pode ser uma tentativa de encontrar segurança
Quando alguma coisa é importante para nós, naturalmente procuramos diminuir riscos.
Preparamos uma reunião, pensamos antes de uma conversa difícil, organizamos as contas, fazemos planos para o futuro.
Não há nada de estranho nisso.
O paradoxo aparece quando começamos a exigir da realidade uma garantia que ela não pode oferecer.
Queremos ter certeza de que a decisão dará certo antes de decidir. Queremos saber como o outro reagirá antes de conversar. Queremos eliminar a possibilidade de perder antes de nos envolver.
A vida, porém, não oferece esse tipo de garantia.
Por mais cuidadosos, organizados ou experientes que sejamos, continuamos convivendo com outras pessoas, acontecimentos inesperados, mudanças e condições que não dependem inteiramente de nós.
É justamente aí que o controle pode mudar de função.
Ele deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser também uma tentativa de proteção contra a incerteza.
Quanto mais tento garantir, mais coisas preciso controlar
Imagine que uma situação futura provoque insegurança.
Para diminuir o desconforto, você começa a antecipar possibilidades.
Por alguns instantes, isso funciona. Surge uma sensação de organização: agora estou preparado.
Mas logo aparece outra possibilidade que não havia sido considerada.
Depois outra.
E outra.
A tentativa de conseguir certeza produz novas incertezas.
É como tentar fechar todas as janelas de uma casa durante uma ventania e descobrir continuamente uma fresta nova.
Talvez a pergunta mais útil, então, não seja:
Como consigo controlar melhor?
Mas:
O que estou tentando evitar quando preciso controlar tudo?
Não há uma resposta única.
Para algumas pessoas pode haver medo de errar. Para outras, dificuldade de decepcionar alguém, receio de perder alguma coisa importante ou uma relação difícil com situações que não podem ser previstas.
É preciso conhecer a experiência concreta da pessoa.
A ansiedade fala do futuro, mas acontece agora
Na Gestalt-terapia damos especial atenção à experiência presente.
Isso não significa ignorar o passado nem deixar de planejar o futuro.
Significa reconhecer que tanto a lembrança quanto a antecipação acontecem agora.
O futuro que você teme ainda não aconteceu.
Mas o peito apertado, os pensamentos acelerados, a necessidade de conferir novamente ou a dificuldade de descansar acontecem neste momento.
Essa diferença parece pequena, mas modifica a pergunta.
Em vez de apenas:
E se amanhã der errado?
podemos começar a perceber:
Como estou me organizando hoje diante da possibilidade de amanhã dar errado?
A segunda pergunta nos aproxima de onde ainda existe alguma possibilidade de escolha.
Controle e responsabilidade não são a mesma coisa
Há coisas pelas quais somos responsáveis.
E há coisas que simplesmente não podemos controlar.
Misturar as duas pode produzir muito sofrimento.
Você pode preparar-se para uma conversa. Não pode garantir a reação da outra pessoa.
Pode cuidar de um projeto. Não controla todas as circunstâncias que afetarão o resultado.
Pode escolher permanecer em uma relação. Não pode escolher pelo outro.
Pode organizar sua vida financeira. Não pode eliminar toda possibilidade de imprevisto.
Responsabilidade não significa domínio.
Significa reconhecer minha participação em determinada situação e responder a partir dela.
Quando uma pessoa tenta responsabilizar-se também pelo que pertence ao outro, ao ambiente ou ao acaso, sua vida pode ficar cada vez mais estreita.
Tudo exige vigilância.
Tudo parece depender de não relaxar.
E até descansar pode começar a parecer perigoso.
Talvez o contrário do controle não seja o caos
Essa é uma polaridade interessante.
De um lado, controle.
Do outro, imaginamos desorganização, irresponsabilidade ou abandono.
Mas existem muitas possibilidades entre esses extremos.
Posso planejar sem exigir garantias.
Posso me preparar e ainda admitir que não sei.
Posso cuidar do que depende de mim e reconhecer aquilo que não depende.
Posso sentir alguma insegurança sem concluir imediatamente que preciso eliminá-la.
Não se trata, portanto, de abandonar o controle.
Trata-se de recuperar escolha.
O que acontece quando alguma coisa sai do seu plano?
Talvez essa seja uma pergunta interessante para levar consigo.
Não procure responder depressa.
Observe.
Quando alguém muda um combinado, o que acontece em você?
Quando uma decisão depende de outra pessoa?
Quando não existe informação suficiente?
Quando você precisa esperar?
Quando algo importante escapa daquilo que havia planejado?
Talvez seja justamente nesses pequenos acontecimentos que sua relação com controle e incerteza fique mais visível.
A ideia não é julgar essa forma de funcionar.
Em algum momento, ela provavelmente fez — ou ainda faz — sentido.
Mas uma resposta que foi útil em determinado contexto pode tornar-se rígida quando passa a ser utilizada em todas as situações.
Amadurecer também envolve perceber quando uma maneira conhecida de nos proteger começa a cobrar um preço alto demais.
Na psicoterapia, não precisamos começar retirando o controle
Podemos começar conhecendo-o.
Quando aparece?
O que tenta organizar?
Do que protege?
O que acontece quando falha?
Que experiências e expectativas participam dessa necessidade?
Talvez você não precise aprender a controlar melhor a vida.
Talvez precise reconhecer com mais nitidez aquilo que pode escolher, aquilo que pode influenciar e aquilo diante do qual será necessário estar presente mesmo sem garantias.
A incerteza não desaparece.
Mas pode deixar de comandar silenciosamente tantas escolhas.
Para continuar a reflexão
Se essa relação entre ansiedade, controle e incerteza aparece com frequência na sua vida, observe em quais situações ela se torna mais intensa. Perceber como você se organiza diante do imprevisível já pode ser um começo.


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