Psicoterapia
O que acontece numa sessão de psicoterapia?
Você conta a uma pessoa de confiança o que aconteceu. Ela escuta, faz uma pergunta, oferece companhia. A conversa ajuda. Então surge uma dúvida bastante razoável: o que seria diferente numa sessão de psicoterapia?
Amizades e vínculos próximos têm um valor próprio. Na psicoterapia, o encontro se organiza com outra responsabilidade: há formação profissional, sigilo, condições combinadas e um acompanhamento do que você vive ao longo do tempo. A escuta tem uma finalidade clínica, e o trabalho é construído com a sua participação.
A história muda um pouco enquanto é contada
Talvez você chegue querendo falar de uma discussão. Ao contar, percebe que o incômodo começou antes. Ou se escuta dizendo “eu sempre cedo” e, pela primeira vez, tem vontade de olhar com mais cuidado para esse “sempre”.
Falar envolve escolher palavras, encontrar uma sequência, hesitar, voltar atrás. Quem escuta participa desse movimento. Uma pergunta pode abrir um detalhe que havia passado despercebido; uma hipótese pode não fazer sentido e precisar ser revista.
Na minha forma de trabalhar, isso pede uma investigação compartilhada. O conhecimento clínico orienta a escuta, mas precisa encontrar a experiência que você reconhece como sua. Você pode discordar, corrigir e dizer que uma compreensão não corresponde ao que está vivendo.
O que também acontece em silêncio
Às vezes, antes da frase, vem uma mudança na respiração. Um sorriso aparece ao contar algo doloroso. A vontade de falar convive com o receio de ser ouvido. Podemos prestar atenção a esses movimentos, sem atribuir a eles um significado de antemão.
Silva e Alvim (2021) discutem a dimensão corporal e afetiva da experiência na Gestalt-terapia. Na sessão, essa atenção inclui o ritmo do encontro e aquilo que ainda não encontrou palavras.
Um silêncio pode dar tempo para perceber algo. Também pode ser desconfortável, cansativo ou deixar a pessoa sem saber como continuar. O cuidado está em acompanhar o que acontece naquele encontro e conversar sobre isso, em vez de supor que todo silêncio tenha a mesma função.
O vínculo precisa poder ser conversado
Conseguir falar de algo difícil depende, em parte, de como você se sente naquela relação. Há espaço para hesitar? Para não saber? Para dizer que uma pergunta incomodou? Para pedir que a conversa vá mais devagar?
Uma meta-análise encontrou associação positiva entre aliança terapêutica e resultados da psicoterapia em diferentes abordagens (Flückiger et al., 2018). O resultado apoia a atenção ao vínculo, mas não permite atribuir a ele, sozinho, os efeitos do tratamento.
A relação dialógica tem lugar importante na clínica gestáltica (Santos et al., 2020). Na minha forma de trabalhar, podemos conversar sobre o que vai se formando entre nós: o receio de desapontar, a dificuldade de pedir, a vontade de se afastar. Esses movimentos só merecem ser explorados quando fazem sentido para você, sem transformar qualquer discordância em sinal de um problema.
Você não precisa trazer uma fala ensaiada
Uma primeira sessão pode começar com uma situação recente, uma dúvida ou a dificuldade de explicar por que você procurou atendimento. Conhecer a demanda inclui conversar sobre o que você espera, como o trabalho acontece e se esse acompanhamento é adequado à sua situação.
Ao longo do processo, avaliamos os caminhos do trabalho. Algumas situações pedem outros profissionais e recursos de cuidado. Reconhecer a necessidade de encaminhamento faz parte dos deveres estabelecidos pela Resolução CFP nº 13/2022 (Conselho Federal de Psicologia, 2022).
A sessão é um tempo reservado para acompanhar sua experiência com atenção. Falar, perceber, silenciar e perguntar podem fazer parte dele. Às vezes, uma mudança começa quando você consegue descrever com mais precisão o que vive. Outras vezes, começa quando encontra companhia para olhar para algo que vinha evitando. O rumo se constrói no trabalho entre nós.
Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 115, p. 116, 21 jun. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-13-de-15-de-junho-de-2022-408911936. Acesso em: 11 out. 2026.
FLÜCKIGER, Christoph; DEL RE, A. C.; WAMPOLD, Bruce E.; HORVATH, Adam O. The alliance in adult psychotherapy: a meta-analytic synthesis. Psychotherapy, v. 55, n. 4, p. 316–340, 2018. DOI: https://doi.org/10.1037/pst0000172. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29792475/. Acesso em: 11 out. 2026.
SANTOS, Manoel Antônio dos; SILVA, Patrícia Francielly Araújo Lara; NASCIMENTO, Lucila Castanheira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Psicoterapia de abordagem gestáltica: um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357–386, 2020. DOI: https://doi.org/10.33208/PC1980-5438v0032n02A08. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php?pid=S0103-56652020000200009&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
SILVA, Thatiana Caputo Domingues da; ALVIM, Mônica Botelho. Gestalt-Terapia e Daniel Stern: dialogando sobre a relevância da corporeidade e da dimensão afetiva na psicoterapia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 27, n. 3, p. 316–327, 2021. DOI: https://doi.org/10.18065/2021v27n3.6. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-68672021000300007&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
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