Textos e reflexões

Psicoterapia

O que falar na terapia quando você ainda não sabe?

A sessão está marcada. Você pensa em contar sobre o trabalho, depois sobre uma conversa em casa. Tenta encontrar o começo certo, imagina perguntas, ensaia respostas. Quanto mais prepara, mais parece faltar uma explicação que reúna tudo.

Talvez o começo seja justamente esse: “Eu pensei em várias coisas, mas ainda não sei o que trazer.” Essa frase já conta algo sobre o momento que você está vivendo. Na psicoterapia, podemos começar por ela.

Você pode trazer um pedaço da semana

Uma conversa que continuou na cabeça. A dificuldade de responder a uma mensagem. O cansaço ao chegar em casa. Um domingo diferente dos outros. Essas cenas ajudam a aproximar o que está acontecendo sem exigir que você conte a vida inteira na primeira sessão.

Enquanto você fala, pode perceber diferenças: aquilo pesa mais diante de certas pessoas; o desconforto começou depois de uma mudança; algo que parecia pequeno ocupa bastante espaço. O psicólogo acompanha, faz perguntas e conversa com você sobre o que vai aparecendo. O relato encontra forma ao longo desse encontro.

Quando as palavras demoram

Às vezes, o que você consegue dizer é “está estranho” ou “parece que não sou eu”. Talvez venha uma pausa, vontade de chorar, uma sensação no corpo. Podemos permanecer um pouco perto disso e procurar juntos uma maneira de compreender.

Frazão (1995) aproxima awareness da percepção presente de si e do ambiente. Silva e Alvim (2021) destacam a dimensão corporal e afetiva da experiência. Na minha forma de trabalhar, essa atenção inclui o que ainda não se organizou em palavras e o ritmo de quem chega. Não me dá um dicionário para traduzir o seu corpo.

Também há assuntos que precisam de tempo. Você pode dizer que algo é difícil de contar ou que prefere voltar a ele em outro momento. O profissional responde pelo cuidado na condução e pode conversar com você sobre o que está dificultando a fala, sem tomar essa dificuldade como falha sua.

Você também pode fazer perguntas

O primeiro encontro é uma oportunidade de conhecer a proposta do psicólogo. Como ele trabalha? Com que frequência costumam acontecer as sessões? Como funciona o sigilo? Quais são as condições do atendimento? Você pode perguntar e observar como se sente nessa conversa.

Ao psicólogo cabe compreender a demanda e esclarecer as condições do trabalho. A Resolução CFP nº 13/2022 prevê um contrato com condições, objetivos, frequência, tempo de sessão e direitos das partes, além de encaminhamentos quando necessários (Conselho Federal de Psicologia, 2022). Essas informações ajudam você a avaliar a possibilidade de acompanhamento.

Uma primeira sessão pode terminar com uma questão mais precisa, com uma dúvida nova ou com a sensação de que há algo importante a continuar. Você pode conversar sobre isso também. O processo precisa fazer sentido para quem participa dele.

Se a falta de uma explicação pronta está adiando a sua procura, talvez seja possível levar menos preparação e mais do que está presente hoje. Uma cena. Uma pergunta. A dificuldade de falar. Podemos começar daí.

Referências bibliográficas

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 115, p. 116, 21 jun. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-13-de-15-de-junho-de-2022-408911936. Acesso em: 11 out. 2026.

FRAZÃO, Lilian Meyer. A relação psicoterapeuta-cliente. Psicologia USP, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 144–149, 1995. DOI: https://doi.org/10.1590/S1678-51771995000200011. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1678-51771995000200011&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.

SILVA, Thatiana Caputo Domingues da; ALVIM, Mônica Botelho. Gestalt-Terapia e Daniel Stern: dialogando sobre a relevância da corporeidade e da dimensão afetiva na psicoterapia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 27, n. 3, p. 316–327, 2021. DOI: https://doi.org/10.18065/2021v27n3.6. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-68672021000300007&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.