Psicoterapia
Preciso estar em crise para fazer terapia?
Você trabalha, responde às mensagens, paga as contas. Quando alguém pergunta, diz que está tudo bem. E, em algum intervalo do dia, volta aquela sensação difícil de explicar: a vida segue, mas você anda distante dela.
Talvez isso pareça pequeno perto dos problemas de outras pessoas. Talvez venha a frase: “Eu deveria dar conta”. É nesse ponto que muita gente adia a procura por psicoterapia. Como se fosse preciso apresentar uma prova de sofrimento para merecer ser escutada.
Você pode procurar terapia sem estar em crise. Um incômodo persistente, uma mudança, uma relação que vem pesando ou uma pergunta que retorna podem ser motivos para uma primeira conversa. O que está acontecendo merece ser compreendido na medida que tem para você.
O que já pede atenção
Pode ser a dificuldade de dizer que algo incomoda. A irritação que aparece no fim de cada dia. Uma decisão sempre deixada para depois. Ou a impressão de viver por obrigação, com pouco espaço para perceber o que deseja.
A perspectiva de campo da Gestalt-terapia situa a experiência na relação entre pessoa e ambiente (Santos et al., 2020). Na clínica, procuro conhecer com quem você convive, o que se espera de você, que recursos existem e quais limites estão presentes. O cansaço de quem trabalha sob pressão, por exemplo, merece um olhar que inclua essa rotina.
A Organização Mundial da Saúde (2022) destaca a importância de transformar os ambientes que participam do sofrimento e de fortalecer o cuidado. No Brasil, Araújo e Torrenté (2023) discutem determinantes sociais e desigualdades na saúde mental. Essa leitura me ajuda a perguntar pelo que pede elaboração pessoal e pelo que também exige apoio, direitos ou mudanças nas condições de vida.
Você pode chegar sem saber explicar
“Não sei muito bem por onde começar” já diz alguma coisa. Nas primeiras sessões, há espaço para conhecer o que motivou a procura e o que você espera do acompanhamento. A demanda pode ganhar clareza aos poucos.
Também é o momento de conhecer minha forma de trabalhar e conversar sobre frequência, sigilo, honorários e outras condições. A Resolução CFP nº 13/2022 prevê clareza contratual, inclusive quanto à possibilidade de interromper o serviço (Conselho Federal de Psicologia, 2022). A decisão de continuar precisa fazer sentido para você.
E quando existe uma crise?
Uma crise pode trazer sofrimento intenso e comprometer o sono, o trabalho, os vínculos ou a segurança. Nessa situação, o cuidado precisa ser avaliado conforme o que está acontecendo. A psicoterapia pode fazer parte dele, junto de apoio da rede, avaliação médica ou serviços de saúde quando necessários.
Começar antes de uma crise não garante que a vida ficará livre de dificuldades. Um acompanhamento pode oferecer tempo e continuidade para reconhecer necessidades e examinar escolhas. Há acontecimentos e condições que o autoconhecimento, sozinho, não controla.
Fazer terapia é uma possibilidade de cuidado, nunca uma obrigação nem um certificado de maturidade. Se uma questão está ocupando espaço na sua vida, você pode conversar sobre ela agora. Não precisa esperar que tudo se torne insuportável.
Referências bibliográficas
ARAÚJO, Tânia Maria de; TORRENTÉ, Mônica de Oliveira Nunes de. Saúde Mental no Brasil: desafios para a construção de políticas de atenção e de monitoramento de seus determinantes. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, DF, v. 32, n. 1, e2023098, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/S2237-96222023000200028. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ress/a/sHG86NSQNyMdLY5CxdBc3gN/?lang=pt. Acesso em: 11 out. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 115, p. 116, 21 jun. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-13-de-15-de-junho-de-2022-408911936. Acesso em: 11 out. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 11 out. 2026.
SANTOS, Manoel Antônio dos; SILVA, Patrícia Francielly Araújo Lara; NASCIMENTO, Lucila Castanheira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Psicoterapia de abordagem gestáltica: um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357–386, 2020. DOI: https://doi.org/10.33208/PC1980-5438v0032n02A08. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php?pid=S0103-56652020000200009&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
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