Textos e reflexões

Gestalt-terapia

O que um sintoma não conta sobre você

O sono falha. A atenção se dispersa. Uma preocupação ocupa mais espaço do que você gostaria. É compreensível querer um nome para isso e algum alívio. Quando o sofrimento interfere na vida, ele merece cuidado.

Um nome pode ajudar a encontrar esse cuidado. Pode organizar uma avaliação, orientar um tratamento, facilitar uma conversa. A dificuldade aparece quando ele passa a responder por tudo: o jeito de amar, uma decisão adiada, o conflito no trabalho, a história inteira.

Entre o que um sintoma descreve e o que uma pessoa vive há muita coisa a conhecer.

O que a descrição deixa de fora

“Estou ansioso” pode virar “sou ansioso” quase sem que a gente perceba. A frase parece pequena, mas muda o alcance daquilo que está sendo dito. Uma experiência passa a soar como destino.

Vale perguntar como essa ansiedade acontece. Em que momentos? Com quem? O que vinha sendo exigido de você? Há alguma situação em que ela diminui? Quais recursos e apoios estão disponíveis?

Essas perguntas orientam meu modo de trabalhar: acompanhar como você sente, percebe e age nas situações que vive. Um diagnóstico, quando necessário, integra a compreensão e ajuda a orientar o cuidado. A conversa continua aberta à sua experiência.

A vida acontece em condições concretas

Uma pessoa pode estar exausta porque vem tentando sustentar mais do que consegue. Pode temer uma conversa porque discordar já lhe custou caro em outras relações. Pode se sentir sem saída diante de condições de trabalho que deixam pouco espaço para descansar ou escolher.

Essas são possibilidades a investigar, nunca explicações que sirvam para todo mundo. Pessoas vivendo situações semelhantes também podem vivê-las de maneiras muito diferentes.

Olhar para o contexto exige atenção ao que há de concreto: renda, moradia, discriminação, jornadas de trabalho, vínculos, acesso a serviços e redes de apoio. Na Saúde Coletiva, Araújo e Torrenté (2023) discutem determinantes sociais e desigualdades na atenção à saúde mental. A Organização Mundial da Saúde (2022) também destaca a importância dos ambientes para o cuidado.

Na perspectiva de campo da Gestalt-terapia, pessoa e ambiente são compreendidos em relação (Santos et al., 2020). Na clínica, esse olhar me ajuda a perguntar pelo contexto sem buscar uma causa única para o sofrimento.

Cuidar do sintoma, conhecer a pessoa

Há situações em que avaliação médica, medicação e outros recursos de cuidado são importantes. Ampliar o olhar inclui reconhecer essas necessidades e os limites de cada forma de atendimento.

Também exige cuidado com explicações sedutoras. Um sintoma não precisa esconder uma mensagem que alguém terá de decifrar. Pode ter diferentes determinantes e permanecer, em parte, sem explicação. Ainda assim, é possível cuidar do que está acontecendo.

Na psicoterapia, podemos acompanhar tanto o sofrimento quanto aquilo que continua existindo junto dele: interesses, vínculos, capacidades, contradições, desejos. Uma pessoa que sofre também trabalha, se diverte, se irrita, faz escolhas, se relaciona. Sua vida não desaparece dentro de uma descrição clínica.

Quando a experiência ganha mais espaço na conversa, outras perguntas podem aparecer. De que apoio você precisa? O que tem conseguido sustentar sozinho? O que importa preservar? Que mudanças são possíveis nas condições atuais?

Essas perguntas não vêm prontas. Elas se tornam mais precisas à medida que conhecemos o que você vive. O cuidado pode começar justamente aí: levando a sério o sofrimento e dando lugar à pessoa que o atravessa.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, Tânia Maria de; TORRENTÉ, Mônica de Oliveira Nunes de. Saúde Mental no Brasil: desafios para a construção de políticas de atenção e de monitoramento de seus determinantes. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, DF, v. 32, n. 1, e2023098, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/S2237-96222023000200028. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ress/a/sHG86NSQNyMdLY5CxdBc3gN/?lang=pt. Acesso em: 11 out. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 11 out. 2026.

SANTOS, Manoel Antônio dos; SILVA, Patrícia Francielly Araújo Lara; NASCIMENTO, Lucila Castanheira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Psicoterapia de abordagem gestáltica: um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357–386, 2020. DOI: https://doi.org/10.33208/PC1980-5438v0032n02A08. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php?pid=S0103-56652020000200009&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.