Gestalt-terapia
Awareness: perceber a vida enquanto ela acontece
Você termina uma conversa dizendo que está tudo bem. Já no caminho de casa, percebe os ombros tensos. Repete mentalmente uma frase, lembra de algo que gostaria de ter dito. A conversa acabou, mas alguma coisa ainda pede atenção.
Em outro encontro, acontece o contrário. Você chega apreensivo, encontra uma escuta disponível e, aos poucos, respira com mais espaço. Talvez só depois perceba o quanto estava se preparando para se defender.
São situações comuns e ajudam a aproximar um conceito da Gestalt-terapia: awareness. A palavra costuma ser traduzida como consciência ou percepção. Frazão (1995) a relaciona à percepção presente de si e do ambiente. Em linguagem cotidiana, é poder acompanhar o que estamos vivendo enquanto a experiência acontece.
O corpo participa da conversa
Às vezes, percebemos primeiro uma vontade de sair, uma mão que se fecha, um alívio discreto. As palavras chegam depois. Silva e Alvim (2021) discutem a dimensão corporal, afetiva e implícita da experiência. Essa atenção me ajuda a acompanhar, na clínica, o que ainda está buscando uma maneira de ser dito.
Um gesto, sozinho, diz pouco. Cruzar os braços pode acompanhar frio, cansaço, conforto ou desconforto. Seu sentido aparece quando conseguimos olhar para a situação: com quem estamos, o que foi dito, o que esperávamos daquele encontro. O terapeuta pode ajudar a explorar essas diferenças; a experiência continua aberta à sua própria percepção.
Atenção sem fiscalização
O desejo de se conhecer pode ganhar um tom severo. Você começa a conferir cada reação, cobrar coerência de cada sentimento, procurar um erro por trás de cada dificuldade. Viver passa a exigir um comentário permanente sobre a própria vida.
Há outro modo de prestar atenção. Uma hesitação pode ser acompanhada por alguns instantes. Um incômodo pode encontrar palavras sem virar um julgamento sobre quem você é. Talvez você perceba que está com raiva e, junto dela, tenha receio de perder uma relação importante. Essas duas experiências podem ter lugar na mesma conversa.
Na psicoterapia, essa atenção se constrói com alguém. Podemos voltar a uma cena, notar o que acontece enquanto você a conta e conversar sobre o que faz sentido ou não para você. A discordância com o terapeuta também faz parte desse trabalho.
Perceber inclui olhar ao redor
Se uma pessoa vive sob pressão no trabalho, seu cansaço precisa ser compreendido também a partir dessa rotina. Se discordar costuma trazer punição numa relação, o silêncio tem uma história que merece ser ouvida. Condições de vida, desigualdades e relações de poder participam do que conseguimos sentir, dizer e escolher.
A perspectiva de campo mantém pessoa e ambiente na mesma investigação (Santos et al., 2020). Para mim, olhar para o contexto pode mostrar recursos pouco visíveis e condições que precisam ser questionadas.
O que pode mudar quando percebemos melhor
Reconhecer uma necessidade não garante que será fácil atendê-la. Você pode compreender por que evita uma conversa e continuar com medo de iniciá-la. Pode perceber que precisa de descanso e ainda ter obrigações que não consegue interromper.
Mesmo assim, alguma coisa se desloca quando a experiência fica mais nítida. O que parecia uma reação inevitável pode revelar uma tentativa de proteção. Um desejo pouco escutado pode começar a participar de uma decisão. Os limites também ficam mais visíveis.
Para mim, esse é um dos sentidos de trabalhar com awareness: acompanhar a vida com atenção suficiente para reconhecer como estamos nela. Às vezes, a pergunta começa pequena. O que mudou em mim durante aquela conversa? O que preciso e ainda não consegui dizer? A partir daí, há uma experiência a ser cuidada, no tempo e nas condições em que ela pode ser vivida.
Referências bibliográficas
FRAZÃO, Lilian Meyer. A relação psicoterapeuta-cliente. Psicologia USP, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 144–149, 1995. DOI: https://doi.org/10.1590/S1678-51771995000200011. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1678-51771995000200011&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
SANTOS, Manoel Antônio dos; SILVA, Patrícia Francielly Araújo Lara; NASCIMENTO, Lucila Castanheira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Psicoterapia de abordagem gestáltica: um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357–386, 2020. DOI: https://doi.org/10.33208/PC1980-5438v0032n02A08. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php?pid=S0103-56652020000200009&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
SILVA, Thatiana Caputo Domingues da; ALVIM, Mônica Botelho. Gestalt-Terapia e Daniel Stern: dialogando sobre a relevância da corporeidade e da dimensão afetiva na psicoterapia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 27, n. 3, p. 316–327, 2021. DOI: https://doi.org/10.18065/2021v27n3.6. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-68672021000300007&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
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