Relações
O que acontece entre nós
Há pessoas com quem você fala sem ensaiar. Com outras, escolhe cada palavra. Às vezes, chega a uma conversa cheio de coisas para dizer e sai tendo concordado com quase tudo. Só depois percebe o que gostaria de ter respondido.
Essas diferenças merecem atenção. A maneira como alguém escuta, interrompe, se aproxima ou se afasta participa do que conseguimos viver naquele encontro. Você continua sendo você, com sua história. Mas essa história ganha expressões diferentes conforme a situação.
Uma conversa tem mais de uma voz
Imagine uma pergunta simples: “Você vai chegar que horas?”. Para quem pergunta, pode haver vontade de estar junto. Quem escuta pode perceber fiscalização. A resposta sai defensiva; a defesa soa como desinteresse. Em poucos minutos, duas pessoas discutem sobre o tom da conversa e já não conseguem falar do que precisavam.
Acompanhar essa sequência permite enxergar algo que se perde quando ficamos apenas nos adjetivos: “ele é fechado”, “ela é exigente”. Podemos perguntar o que foi pedido, o que foi ouvido e como a conversa mudou. Nem sempre teremos a mesma leitura. A diferença também precisa ter lugar.
Na perspectiva de campo da Gestalt-terapia, pessoa e ambiente são compreendidos em relação (Santos et al., 2020). Na clínica, isso me leva a perguntar como uma reação ganha sentido naquele encontro, em vez de tratá-la como uma característica pronta para qualquer situação.
O encontro inclui o corpo. Um silêncio prolongado, a voz que diminui, a postura que endurece: há aspectos da experiência que aparecem antes de uma explicação. Silva e Alvim (2021) discutem a dimensão corporal e afetiva na clínica gestáltica. Prestar atenção a isso pode abrir uma conversa sobre o que ainda está buscando palavras.
Também há poder, história e condições de vida
Um funcionário que hesita diante do chefe não está na mesma posição de um amigo que discorda de outro. Uma criança depende dos adultos de maneiras que um adulto não depende dela. A liberdade de falar, recusar ou sair de uma relação é desigual.
Por isso, olhar para o que acontece entre as pessoas exige cuidado com a responsabilidade. Em situações de violência ou coerção, repartir a culpa entre as partes apaga diferenças fundamentais. A proteção de quem está sob risco precisa orientar o cuidado.
O contexto também ultrapassa a conversa. Pressão no trabalho, discriminação, insegurança financeira e falta de apoio podem estreitar as possibilidades de alguém. Araújo e Torrenté (2023) discutem determinantes sociais e desigualdades na saúde mental brasileira. Para mim, ignorar essas condições pode acabar pedindo à pessoa que resolva, sozinha, o que excede suas forças.
O encontro da terapia também entra na conversa
Na psicoterapia, podemos acompanhar o que você relata e o que se passa durante a sessão. Pode ser difícil discordar de mim, pedir mais clareza ou dizer que uma observação não fez sentido. Essas experiências podem ser conversadas, com respeito ao seu ritmo e à sua maneira de compreendê-las.
A Resolução CFP nº 13/2022 estabelece direitos e deveres no serviço psicoterapêutico (Conselho Federal de Psicologia, 2022). Como psicólogo, respondo pelos limites e pelas condições do atendimento. Uma leitura minha precisa permanecer aberta à sua resposta: você pode discordar, corrigir e dizer que algo passou despercebido. Esse diálogo faz parte do meu trabalho.
A pergunta “por que sou assim?” pode então ganhar companhia: em quais situações isso acontece? Com quem? O que muda quando há apoio? Olhar para essas diferenças permite reconhecer o que você aprendeu a fazer, o que ainda precisa proteger e onde há possibilidade de escolha.
Somos afetados pelas relações e também participamos delas. Reconhecer isso pode aliviar a exigência de controlar tudo, sem nos dispensar de responder pelo que fazemos. Há uma delicadeza nesse aprendizado: encontrar a própria voz enquanto se percebe quem mais está na conversa.
Referências bibliográficas
ARAÚJO, Tânia Maria de; TORRENTÉ, Mônica de Oliveira Nunes de. Saúde Mental no Brasil: desafios para a construção de políticas de atenção e de monitoramento de seus determinantes. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, DF, v. 32, n. 1, e2023098, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/S2237-96222023000200028. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ress/a/sHG86NSQNyMdLY5CxdBc3gN/?lang=pt. Acesso em: 11 out. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 115, p. 116, 21 jun. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-13-de-15-de-junho-de-2022-408911936. Acesso em: 11 out. 2026.
SANTOS, Manoel Antônio dos; SILVA, Patrícia Francielly Araújo Lara; NASCIMENTO, Lucila Castanheira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Psicoterapia de abordagem gestáltica: um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357–386, 2020. DOI: https://doi.org/10.33208/PC1980-5438v0032n02A08. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/scielo.php?pid=S0103-56652020000200009&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
SILVA, Thatiana Caputo Domingues da; ALVIM, Mônica Botelho. Gestalt-Terapia e Daniel Stern: dialogando sobre a relevância da corporeidade e da dimensão afetiva na psicoterapia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 27, n. 3, p. 316–327, 2021. DOI: https://doi.org/10.18065/2021v27n3.6. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-68672021000300007&script=sci_arttext. Acesso em: 11 out. 2026.
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